O motorista do Uber que quer ficar rico com a bolsa | Blog do André Rocha

O mercado acionário no Brasil sempre foi pequeno: tanto no número de empresas listadas quanto nos profissionais que trabalham na área. Em qualquer reunião de empresa, encontramos sempre as mesmas caras. Os analistas e gestores de ações parecemos vizinhos de uma vila no subúrbio onde cada casa vende alguma coisa para ajudar no orçamento: uma vende pipa e cerol; a outra, cuscuz; uma terceira, panos de prato bordados …

“Sabe o João da casa 7? Brigou feio com a mulher. Se mudou para a casa 16. Está lá agora trabalhando com o Amauri”.

“E o Bruno da casa 11? Quer ser independente. Saiu da casa do pai. Resolveu construir do nada uma nova naquele terreno lá no fim da vila”.

“Nunca mais vi Isabel!” “Você não soube? Cansou da vila. Quer outra vida. Foi morar num prédio aqui perto”.

É mais ou menos assim que sabemos das movimentações dos amigos entre as gestoras e corretoras, do nascimento de uma nova asset ou de alguém que deixa de ser analista ou gestor, indo procurar novos desafios.

A revitalização do mercado a partir de 2016 trouxe alento à vila que sofreu bastante com as enchentes causadas pela tempestade Rousseff. É animador ver os clientes voltando, a freguesia retomando.

Mas dessa vez, eles têm outra face. Até 2012, antes da catástrofe, não havia tantos fregueses. Eram poucos, a maioria ricos. Eles eram fiéis e bastavam para que cada casa pudesse se manter.

Agora não. Vem gente de tudo que é lado. A vila está cheia. É uma balburdia. Os clientes antigos compravam para seu uso ou para dar de presente. Os novos não sabem bem o que querem. Muitos dizem que eles compram na vila para revender logo adiante. Querem lucro rápido.

Na última semana, peguei um Uber. O motorista assistia atentamente um vídeo sobre os possíveis efeitos do coronavírus. Perguntei quem havia feito a gravação. “Um cara lá de São Paulo”. “Toda manhã, ele diz se é para comprar ou vender ações”; “Mas é para fazer tudo no mesmo dia. ´Dei treidi`. É meio difícil para te explicar”. “E aí tá ganhando dinheiro?”, dei corda. “Perdi um pouco, mas me serviu de lição. Aprendi muito. Agora estou mais confiante. Esse carro é do meu pai. Vou vender o meu para operar com mais dinheiro”.

Tenho também um porteiro que gosta de ações. A aposta dele há algum tempo era em Vanguarda, ex-Brasil Ecodiesel, atual Terra Santa, companhia que tinha tido problemas sérios. A ação que chegou a negociar próximo a R$ 400 no início da década, hoje está a cerca de R$ 20. Ele nunca monta uma carteira de ações. Suas apostas são sempre em papéis de companhias em geral com situação financeira crítica.

Esses novos fregueses são muito bem-vindos à nossa comunidade, mas podem se decepcionar com os produtos. Podem não fazer o lucro que gostariam de forma tão rápida. E aí vão falar mal da vila.

É verdade que alguns moradores mais velhos não gostam dessa nova clientela. Já ganharam muito dinheiro no passado com os grã-finos. Não tem paciência com os clientes novos. Alguns até já se mudaram para bairros chiques. Não venderam a casa, mas hoje quem toca é uma nova geração.

Eu gosto dessa mistura: grã-finos e populares. Mostra que nossa vila começa a se parecer como as que existem nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas é preciso que os novos fregueses tenham uma visão menos imediatista.

O investimento em bolsa não pode ser visto como um substituto perfeito para os fundos DI.

Carrega muito mais risco. Era natural ter 100% do patrimônio alocado em DI. Mas não em bolsa. Poucos têm estômago para encarar a volatilidade do mercado com o patrimônio total alocado em ações. Além disso, é pedir para sofrer apostar em uma única ação de companhias com dificuldades financeiras. A carteira deve ser balanceada.

A queda dos juros, sendo permanente, tem a capacidade de transformar a dinâmica da nossa economia. Mais empresas tendem a ser abertas. Serão necessários novos investidores.

Nossa vila, sempre acanhada, parece que vai crescer. E não falta espaço. Tem muito terreno baldio ainda para a gente se expandir. Os novos clientes, entendendo como funciona a vila, não se arrependerão de se tornar clientes.

* Publicado originalmente na edição impressa do Valor Econômico de 12/02/2020

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